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Friday, May 18, 2012

O fim da Battlestar Galactica e a teoria da Eva Mitocondrial

Posted by Mac² on 23/03/2009

Aviso: Se ainda não viu o final da BSG, este post está cheio de spoilers.

Quem seguiu a série televisiva Battlestar Galactica (não a original dos anos 80s, mas o remake que recentemente acabou) foi presenteado com um final agradavelmente inesperado: o grupo de sobreviventes (Cylons e Humanos) chega a um planeta, a que resolvem chamar (prosaicamente) Terra. Ali tomam a decisão de recomeçar tudo de novo, abandonando a tecnologia que sempre os acompanhou e apostando numa possível miscigenação com os seres nativos do planeta (de tipo também humano, bípedes, socialmente agrupados em clãs ou tribos).

Esqueçamos a imensa improbabilidade de:

  • O grupo abandonar a tecnologia com a qual sempre viveu e da qual sempre dependeu.
  • O grupo ser capaz sobreviver num planeta que desconhece biológica e geologicamente (quer como hipotéticos caçadores-recolectores ou como horticultores-pastores).
  • O grupo ser compatível biologicamente com os recursos desse planeta e com os demais seres com os quais se pretendem miscigenizar (i.e., a dificuldade de efectivamente produzir híbridos férteis).
  • O grupo sobreviver após se dividir em vários sub-grupos, sabendo nós que, quão menor o grupo, maiores as dificuldade de reprodução com sucesso.

Esqueçamos tudo isso, que faz parte da liberdade de autor de um argumento de ficção-científica, e foquemos a atenção no que se passa a seguir…

BSG Finale 01

Passados 150.000 anos temos alguém (*) a ler um artigo científico sobre “A Primeira Mãe da Humanidade e os seus segredos” (Mankind’s First Mother Gives Up Her Secrets). Uma voz off dá-nos conta da descoberta (na Tanzânia) de restos humanos (femininos, jovens) que podem ser a Eva Mitocondrial, “o nome dado ao mais recente antepassado comum de todos os seres humanos que actualmente vivem na Terra”. Os estudos genéticos apontam para que esta “Eva” tenha existido há cerca de 150 mil anos.

BSG Finale 02

A lógica da série diz-nos que essa Eva Mitocondrial seria, então, uma híbrido (ou uma descendente dos híbridos) de Mãe Cylon e Pai Humano (ou vice-versa, claro). Ou seja, toda a actual população desta Terra seria descendente de Cylons e Humanos. Neste cenário, os restos em causa tanto podem ser da Hera como de qualquer outra descendente do grupo, desde que fosse, ou tivesse como ascendente, um híbrido.

Note-se que a teoria da Eva Mitocondrial (originada em 1987, mas com desenvolvimentos posteriores) não nos dá o mais recente antepassado comum de todos os humanos, mas sim sim a mais recente antepassada comum de todos os humanos via ADN mitocondrial (a mitocôndria é um dos organelos presentes nas células, normalmente só transmitido geneticamente pela mãe à sua prole). Pensa-se que terá vivido na África Oriental, entre há 160-140 mil anos atrás. Na realidade, o mais recente antepassado comum de toda a humanidade deve ser bem mais recente (estima-se que na ordem de alguns milhares de anos apenas).

De qualquer das formas, e não querendo entrar na discussão científica mais pura (para isso aconselho a leitura dos livros do Bryan Sykes, do Richard Dawkins ou do Stephen Oppenheimer), confesso que, como arqueóloga, achei a ideia bem esgalhada. Até porque num série ficção em televisão, como num filme, gosto mais da surpresa com uma pitada de ciência, do que de ciência pura e dura (é para isso que existem os documentários científicos).

Nota: (*) Nada mais nada menos que o Ron D. Moore, num cameo francamente distractivo (pela negativa).

  • Luís F. Alves said,

    Sabes que não acho assim tão descabido eles abandonarem a tecnologia? Ao fim e ao cabo, aquele pessoal assistiu a três “fins de mundo”. Não me parece que um recomeçar do zero lhes desagradasse.

  • Luís F. Alves said,

    Quanto à miscenização, não há uma teoria qualquer que diz que o Homo Sapiens conviveu com o Homem de Neandertal, mas que este segundo se extinguiu por alguma razão?
    Ter-se-á o pessoal da BSG apropriado de recursos que não eram deles? :D

  • Mac² said,

    É possível. Não provável.

  • Mac² said,

    A questão dos Neandertais ainda está em aberto. Sabemos que se extinguiram, mas não as razões. Por outro lado, a própria extinção é controversa pois não sabemos, com total certeza, se os Neandertais contribuíram ou não para a poll genética dos humanos actuais (a criança do Lapedo é, aliás, apontada como uma possível descendente de um híbrido Neandertal/Humano Moderno). Note-se, contudo, que os Neandertais só habitaram Europa e Próximo-Oriente.

    Acho que os Neandertais não foram, de todo, metidos ao barulho na história da BSG.

  • Filipe Freitas said,

    Para um povo que durante 6 anos apenas viu corredores metálicos e sombrios, com a ameaça constante de um ataque, a ideia de viverem na natureza deverá parecer-lhes o paraiso.

  • Mac² said,

    @ Filipe —

    Claro que sim. Mas isso não invalida o que eu disse anteriormente.

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