Os audiobooks são como os livros… ou talvez não.
Posted by Mac² on 30/01/2010
Custa-me escrever audiolivros, audiobooks soa-me melhor. Talvez porque eu nunca tenha ouvido um audiolivro, no sentido em que apenas ouvi audiobooks em versão original e, no caso particular, em inglês. Perdoar-me-á o leitor a anglofilia.
Audiobooks? Porquê?
Há semanas em que passo muito tempo dentro do carro — cerca de 2 horas por dia. Para alguém que, como eu, não tem um imenso gosto em guiar (não menosprezando o meu simpático Honda Civic 1.8), essas 2 horas são… chatas. Por isso, como muitos, oiço rádio. O problema da rádio é que, à hora em que estou no carro, ou me viro para a música (e aí prefiro os CDs) ou para as conversas e/ou entrevistas. Infelizmente estas deixam-me com azia após o rol interminável de más notícias (sim, refiro-me, por exemplo, à TSF ou à Rádio Popular).
Essa azia levou-me aos podcasts. É assim que oiço o MacBreak Weekly, o MacJuri ou, por vezes, o Pessoal e Transmissível. Mas após 20 ou 30 podcasts uma pessoa farta-se um pouco. Passei pela audição de leituras ou peças teatrais na BBC; uma experiência interessante mas não duradoura. E eis-me nos audiobooks, que permitem uma maior variedade de estilos auditivos, quer no género (ficção e não-ficção, com todos os subgéneros), quer em formato (CD ou mp3, via iPod ou via consola do carro, etc).
A escolha: Dan Brown e Greg Iles
Os dois últimos audiobooks que escolhi ouvir são interessantes pela experiência comparativa que permitem. Tratam-se de dois “policiais” de autores afamados: o The Lost Symbol do Dan Brown, lido por Paul Michael (link) e o Blood Memory do Greg Iles, lido por Joyce Bean (link). O primeiro livro não me vinha recomendado positivamente, mas seguindo a velha máxima do meu avô — gostos não se discutem, lamentam-se! — tal não me impediu de o começar a ouvir (que estranho usar o verbo “ouvir” em vez de “ler” quando nos referimos a um livro). O segundo é de um autor que sempre gostei de ler e do qual recomendo quase todas as obras.
Ouvir audiobooks
Ouvir um audiobook é uma experiência diferente de ler um livro. Bem mais diferente do que eu esperava, pois existem aspectos que condicionam, e em muito, a experiência. Por exemplo, a velocidade em que a história se desenvolve não é decidida pelo leitor/ouvinte. Por mais rápidos que sejamos na leitura de livros, o desenrolar de um audiobook ultrapassa o nosso controlo. Alguém o lê, numa velocidade que não é nossa, e nós assumimos um papel muito mais passivo que aquando da nossa própria leitura. Depois, numa versão audio é-nos muito mais difícil saltar a leitura em frente e bisbilhotar algum do texto (ou mesmo o final). Neste aspecto, ouvir um audiobook oferece uma experiência semelhante à de ir ao cinema ver um filme ou ao teatro ver uma peça.
Outro aspecto muito interessante é o do lugar em que nós, receptores da mensagem, nos posicionamos face à mensagem emitida. Passo a explicar… Quando eu leio um livro não o leio em voz alta, mas dentro do cérebro existe uma voz, minha, que me conta uma história. Numa história de ficção, a determinado momento essa voz e a personagem central (ou as personagens centrais) misturam-se e o receptor (eu, neste caso) estabelece uma ligação afectiva com a personagem. Na minha perspectiva, se esta ligação não existe, o autor do livro falhou no seu objectivo. Ora, num audiobook essa voz, mais óbvia e intrusiva, não é a nossa e a tal “ligação afectiva” demora mais tempo a estabelecer-se, uma vez que entre a personagem e o receptor existe um entreposto. A qualidade desse entreposto (a voz que emite o texto) é-de extrema importância: a entoação, a utilização de tons diferenciados conforme as personagens, as pausas, os tiques… tudo isso contribui para a nossa experiência (melhor ou pior) como ouvintes.
Resultados diferentes
E eis-nos de novo nos dois livros que me propus ouvir. O mesmo esquema, mas resultados totalmente diferentes.
O livro do Dan Brown é francamente mau. A história tem uma premissa interessante, como todos os livros que li dele, mas o desenrolar é, no mínimo, irritante: o esquema básico de cada capítulo, na tentativa crescente de preparação do inevitável cliffhanger; o comportamento paternalista do personagem principal que mais parece uma mini-enciclopédia ambulante; a típica personagem feminina secundária, maçadora até dizer chega; o suposto vilão que já não traz nada de novo, sendo uma mistura-e-toca-o-mesmo dos outros vilões do Dan Brown; o mesmo tom batido e esbatido (sim, esbatido) da teoria da conspiração; os erros óbvios de quem sabe muito sobre nada e sabe um pouquinho sobre tudo.
Esta irritação é amplificada pela leitura de Paul Michael. Note-se que Paul Michael tem uma excelente voz, baixa, grave; muito clara e fácil de entender. Mas as mudanças de tons que aplica quando muda de personagem são verdadeiramente patéticas ou, se preferirem, exasperantes. Tanto que, após chegar ao vigésimo capítulo (mais ou menos), não aguentei mais e tive que parar de ouvir o audiobook.
Clicar aqui para ouvir um excerto do “The Lost Symbol”
É possível que tivesse acabado de ler o livro caso o seu formato fosse escrito, mas não consegui passar de 1/4 do audiobook. Ouvir o The Lost Symbol neste formato audio foi um fracasso e, sendo mais óbvia, diria que a experiência foi má, provavelmente muito má.
O livro de Greg Iles é melhor. Peca por ser demasiado longo e ter uma personagem principal de idade inferior (31 anos) à que deveria ter na realidade, mas a história está bem esgalhada com três linhas principais (a vida actual da personagem principal; a vida passada e traumática da personagem principal e sua família; e uma série de crimes na actualidade) que se cruzam e re-cruzam. À primeira vista, o cenário é menos cativante que o do livro de Dan Brown (trata-se de Natchez e de New Orleans, ao invés de Washington), mas a velha máxima de “escreve sobre o que sabes e não inventes demasiado” aplica-se na perfeição. Greg Iles apresenta temas negros, para alguns leitores certamente demasiado negros (o abuso sexual de crianças e os traumas que deixa, a Guerra do Vietname e o alcoolismo); contudo, conseguiu deixar-me curiosa e atenta, ao invés de enfadada ou horrorizada.
A voz de Joyce Bean é quase perfeita. Tal como a de Paul Michael é agradável e clara, com o extra de apresentar sotaque do Mississipi, que eu sempre achei de enorme charme e que fica muito bem na personagem principal. As variantes vocais utilizadas para as personagens secundárias são bem feitas e óbvias na sua distinção, usando inclusive alguma tecnologia extra para modificar o som quando a voz é supostamente ouvida ao telefone. Mas nem tudo é perfeito: o audiobook falha, sobretudo, na transição dos CDs quando é embutida uma música de fundo, como que em aviso de que o CD está a acabar ou a começar.
Clicar aqui para ouvir um excerto do “Blood Memory”
Ainda não acabei o audiobook do Greg Iles, mas deixei de o ouvir apenas no carro para o ouvir também em casa. Isto é um óbvio êxito. De certo modo, apaixonei-me pela personagem principal (curiosamente cheia de vícios e defeitos) e pela sua voz. Extraordinária é a estranha reacção que tive com o vilão. O vilão é-nos apresentado como alguém frio, calculista, e até repugnante, mas quando a interacção entre ele, a personagem principal e nós (receptores) se estabelece de facto, a metamorfose é interessantíssima. No fim, compreendemos a atracção (não sexual, note-se) que a personagem principal sente por alguém que tem uma experiência de vida e uma inteligência fora do comum e que, como tal, a pode ajudar a entender o passado e o presente. Compreendemo-la porque também a sentimos.
Prometedor é o mínimo que, por agora, posso dizer deste audiobook e tal deve-se, não só a Greg Iles, mas também a Joyce Bean, que aliás já ganhou vários prémios como leitora de audiobooks.
À laia de conclusão final
Ouvir um audiobook não é o mesmo que ler um livro. A história de base está lá, mas é certamente melhorada ou piorada pela qualidade do leitor do audiobook. De certo modo é como uma matéria escolar e o professor: o interessante pode ser uma estopada e uma estopada pode tornar-se interessante.
Uma coisa garanto, se o audiobook é bom, as 2 horas diárias de carro deixam de ser uma maçada para se tornarem curtas.

Bom, sou arqueóloga e professora. Nas horas vagas, mac geek com uma perninha no mundo dos podcasts (TriploExpresso). Não se deixem enganar pelo nome do blogue, pois os temas que por aqui pululam são mais vastos: escrevo sobre a apetitosa maçã, sim, mas não me coibo de falar de política, cinema e tudo o que mais me apetecer. É essa a essência de um blogue pessoal. (Há mais informações na página
Subscreva o feed do Mac²
Receba o Mac² por email

Luís Miranda said,
Também gosto de entreter a mente durante a hora de viagem que faço diariamente. Aproveito para deixar a dica de um dos meus podcasts preferidos, o RadioLab: http://www.wnyc.org/shows/radiolab/
mario said,
talvez devesse dar uma olhada no site de audiobooks em portugues da Universidade Falada : http://www.universidadefalada.com.br. Um Maravilhoso site de audiolivros !!
Filosofia e mitologia , principalmente os audiolivros do Viktor Salis, deixam qualquer viagem mais curtas. Ainda mais os audiolivros gratuitos .
de uma olhada …
Manuel Marques said,
Viva! Partilho um pouco das suas opiniões sobre os audiobooks – realmente, não se controla a velocidade nem o posicionamento da história, é como “ouvir” um filme (sim, que eu não sou do tempo das radionovelas, não consigo estabelecer paralelo com isso…
).
O único audiobook que li/ouvi até hoje foi o iWoz, do Steve Wozniak (em jeito de autobiografia, recheada de coisas interessantes e quiçá moralizadoras). E gostei da forma como foi implementado, tanto que a certo ponto comecei a pensar que era o próprio Steve Wozniak a narrar a história!
E realmente é um meio interessante de ler um livro – naquela altura, passei os capítulos todos para o iPod e ia-os ouvindo no autocarro a caminho de casa, e mesmo à noite, em vez de estar a cansar os olhos numa leitura tardia (e realmente os audiobooks devem ser um deleite para os invisuais! Poderem largar o Braille por uns momentos e concentrarem-se exclusivamente na história deve ser excelente para eles!).
Por outro lado, não sei se gostaria assim tanto de os ouvir no carro. Para além de eu gostar bastante de conduzir (não me entenda mal, eu gosto de conduzir quando não há trânsito por perto! Noutras ocasiões, evidentemente que utilizo os transportes públicos, que são muito mais convenientes), e daí achar que não “perco” assim tanto tempo ao volante, eu sou uma pessoa que se distrai com qualquer coisinha, de tal forma que sou incapaz de me orientar na minha própria cidade quando vou a conduzir – ou é o percurso que realizo há anos, ou então acabo sempre a dar voltas, perdido
. Daí que prestar atenção à narrativa de um audiobook enquanto conduzo poderia resultar em algo desastroso
.
Enfim, peço desculpa se me alonguei no comentário!
Mac² said,
@ Luís Miranda — Parece que hoje está difícil aceder ao site do Radiolab, mas volto a tentar bisbilhotar mais tarde. Obrigada pela dica.
Mac² said,
@ mario — Os meus gostos, como se nota pelo post, andam mais pelos livros anglo-americanos, mas darei certamente uma espiada. Obrigada pela dica.
Mac² said,
@ Manuel — Já sabe que é sempre bem-vindo aqui ao meu jardim.
Pode alongar-se o que quiser.
Eu não oiço audiobooks em trânsito citadino, mas antes por estradas nacionais entre vilas e cidades. Passa-se o tempo muito bem. E, sim, à noite também dá muito jeito, apesar de por vezes adormecer embalada na voz. Ah… Nem me tinha lembrado dos invisuais. De facto, ter audiobooks é certamente uma imensa mais valia.
paula simoes said,
Gosto muito de ouvir “livros”, mas talvez porque tenho encontrado “livros” engraçados.
Coloco aspas em “livros” porque os meus géneros favoritos passam pelos Old Time Radio (archive.org ou em vários outros websites). Apesar da qualidade de som ser fraquinha, o que se compreende dado serem muito antigos, gosto particularmente do “Crime Clube” e das “Aventuras do Nero Wolfe”. São baseados em livros, mas na verdade acabam por ser dramatizações. Ouvi alguns excertos de umas gravações da BBC dos livros da Agatha Christie, que me pareceram bons, mas nunca comprei nenhum (atenção, que a BBC tem um gosto particular pelo DRM)
Aqui há tempos, aproveitei uma promoção da emusic, que sei que não tem DRM, em que subscrevendo um mês dava direito a poucas dezenas de músicas com oferta de dois audiobooks, o Marcos escolheu as músicas e eu escolhi os livros, que me surpreenderam pela positiva e de duas formas diferentes:
e as entoações de forma correcta e o outro, uma história do jazz, não só pela boa dicção, mas principalmente pelo facto de ao mesmo tempo que ouvimos a história do Jazz, ouvimos excertos daquele tipo de música, o que seria mais difícil num paperbook/ebook
Um deles pelo facto da pessoa que o lia, “fazer as vozes”
Também já experimentei os audiobooks da Librivox, mas apesar de admirar o trabalho feito, acabam por me cansar. É preciso ter um bom treino de voz para ler um livro em voz alta sem cansar e manter os ouvintes interessados.
Pedro said,
Comecei nos audiolivros com o Harry Potter e há muito que estou rendido. Actualmente ando a ler audiolivros em Português (via FNAC). e posso dizer que estamos a anos luz da qualidade dos audiobooks em língua inglesa. O que é uma pena.
Já agora, recomendo o “I am america” do stephen colbert…
syrin said,
Nunca ouvi um audiolivro. Mentira: ouvi partes de um audiolivro enquanto viajava até Loulé onde fui levar uma exposição. Foi escolha do meu chefe, ele ia a conduzir, por isso não tive outra hipótese.
Não posso dizer que seja fã de audiolivros, por perder rapidamente o interesse na palavra falada na rádio. Mas no meu trabalho tornaram.-se muito importantes. Em geral, na Alemanha, os audiolivros há muito que se tornaram um sucesso, de tal forma que existem festivais de verão a eles dedicados e que o mercado editorial tenha vindo a apostar cada vez mais nesse sentido.
Já agora – este ano vamos organizar a terceira edição do festival de audiolivros “Jardim dos Sons”. Se passares por Lisboa em Junho podes sempre dar um saltinho ao instituto.
O festival em 2009 – http://www.goethe.de/ins/pt/lis/acv/hrk/2009/pt4554202.htm
O festival em 2008 – http://www.goethe.de/ins/pt/lis/acv/hrk/2008/ptindex.htm
O nosso blog sobre audiolivros
http://blog.goethe.de/audiolivros/
Add A Comment